Nós nunca nos cansamos de uma boa história de pescador, porque, no fundo, o ser humano é movido pelo encantamento e pela conexão, de maneira que essas narrativas entregam isso perfeitamente.
- A celebração do convívio social: ninguém conta uma história de pescador sozinho para a parede. Ela nasce na mesa do bar, ao redor da fogueira ou no barranco do rio. Nós gostamos dessas histórias porque elas resgatam o calor humano, a risada compartilhada e o olho no olho; coisas que a tecnologia muitas vezes afastadas.
- O mistério da natureza: o fundo do rio ou do mar é um universo desconhecido. Quando o pescador diz que “algo gigante deixa a linha e sumiu”, nossa mente ativa o modo de curiosidade infantil. Nós secretamente queremos acreditar que existem monstros e mistérios escondidos na água.
- Nostalgia e tradição: ouvir essas histórias nos conecta aos nossos avós, pais e amigos mais velhos. É uma tradição oral pura. Nós não cansamos delas porque elas têm cheiro de infância, de domingo à tarde e de momentos em que a única preocupação era saber se o peixe ia ou não morder a isca.

(eu)
História 1
O roubo do tambaqui gigante ou O dia em que um peixe roubou meu celular

(eu)
Todo pescador tem aquela história do “peixe que escapou”.
Mas o que aconteceu comigo na última pescaria no Pantanal vai além.
Eu estava na margem do rio, concentrado, quando a linha esticou de uma vez.
A carretilha começou a cantar tão alto que parecia uma Ferrari na Fórmula 1.
Briguei com o bicho por duas horas. Meus braços já estavam travando quando finalmente consegui trazer o monstruoso para a superfície.
Era um Tambaqui que, sem brincadeira, devia pesar uns 45 quilos. O bicho era tão largo que parecia a tampa de um bueiro.
Fiquei tão empolgado que peguei o celular do bolso para tirar uma selfie com o troféu. Foi aí que o inacreditável aconteceu.
O peixe deu uma rabanada na água, bateu exatamente no meu pulso, pegou o celular com a boca no ar e submergiu. Fiquei ali, de boca aberta, olhando para o rio.
O pior foi não perder o peixe ou o celular. O pior foi quando cheguei em casa.
Minha esposa veio me perguntar por que eu tinha mandado um emoji de onda e um de anzol no grupo da família às três da tarde.
Até hoje o bicho não me devolveu o aparelho, mas desconfio que ele está usando o meu plano de dados para assistir a vídeos de receita de isca.
História 2:
O nevoeiro e o lambari de três metros ou O mistério do lambari lendário da represa velha

(eu)
Existe um ditado que diz: “tamanho não é documento”…
Quem inventou isso claramente nunca pescou na Represa Velha em uma madrugada de neblina.
Eu estava lá com o meu compadre, seu Zé, um homem que já pescou até em poça de chuva.
A neblina era tão densa que a gente não enxergava a ponta da própria vara de pescar.
De repente, uma boia sumiu. Mas não sumiu afundando, ela simplesmente sumiu para o alto.
A linha subiu em linha reta para o céu. Asssustado, comecei a encontrar. A força que puxava do outro lado era tanta que nosso barco de alumínio começou a ser rebocado à represa adentro.
Quando o bicho finalmente pulou da água, uma neblina se abriu. O reflexo da lua bateu nas escamas prateadas do animal.
Era um Lambari. Mas não um lambari comum de fritar na frigideira.
Era um Lambari de pelo menos três metros de comprimento, com olhos traçados como painéis de caminhão.
Ele olhou bem nos meus olhos, deu uma piscadinha, soltou o anzol com uma delicadeza de transporte e voltou para as profundezas.
O seu Zé largou a pinga na mesma hora e jurou nunca mais pescar antes do sol nascer.
Eu continuo voltando lá todo sábado, sempre levando uma rede do tamanho de uma lona de circo. Vai que ele resolve aparecer de novo?
História 3
A isca que virou amiga ou A história do peixe que tinha medo de água

(Vecteezy)
Essa história aconteceu no Rio Paraná.
Eu estava usando uma traíra viva como isca para tentar fisgar um Jaú grande.
Joguei a linha na água e esperei. Passaram-se cinco minutos e a ponta da vara começou a tremer de um jeito esquisito, meio tremelicando, sem puxado para baixo.
Recolhi a linha para ver o que estava apostando. Quando a traíra saiu da água, ela ficou agarrada ao anzol com as duas nadadeiras peitorais, tremendo de frio (ou de medo).
Coloquei ela na palma da mão e observei que ela estava com solução.
Percebi ali que aquela traíra sofria de hidrofobia: ela tinha chão de água e medo de altura (quando eu a erguia).
Fiquei com tanta pena do bicho que decidi não usar mais como isca. Batizei ela de “Clotilde”.
Hoje em dia, a Clotilde mora em um conforto seco na minha sala, em cima de uma almofada.
Ela come ração na minha mão e, quando eu pego a minha caixa de pesca para sair de casa, ela começa a abanar o rabo igual a um cachorro, implorando para ir junto, desde que seja para ficar bem longe do rio, claro.

(eu)
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